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sábado, 21 de maio de 2016

1808: CHEGADA DA FAMÍLIA REAL AO BRASIL.

 1808- A História do nosso Brasil explica muita coisa!



Laurentino Gomes mostra que é bacana estudar História

De onde você imagina que surgiu nosso país, quais são as suas raízes? Por que corrupção, favorecimentos e violência convivem com humor, calor humano e produção agrícola? A leitura do livro 1808, de Laurentino Gomes, revela-nos isso de uma forma leve e interessante!

O Brasil teve toda sorte de vai e vem histórico. Foi mantido "escondido" do mundo por 300 anos, foi o único país das Américas a ter um Rei, foi o maior mercado de escravos da África, um país onde escravos eram donos de escravos e palco de uma das mais corruptas casas reais do mundo.
Recheado de histórias deliciosas, depoimentos contundentes da época e pesquisas - não só em fontes no Brasil e Portugal, mas também em registros históricos Ingleses, Americanos e Franceses - não existe como parar de ler esta obra.


Recuperando a história de um país que a despreza

Nascido a partir de uma série de especiais para a revista Veja, o livro "1808", segundo Laurentino Gomes, tem como principal objetivo o resgate da verdadeira importância da vinda da família real ao Brasil, retirando dela o tom caricato que lhe foi dado em obras como, por exemplo, o filme "Carlota Joaquina - Princesa do Brasil". Além disto, o livro se propõe a trazer aos curiosos e interessados sobre a história do Brasil uma leitura mais leve e agradável, longe dos ‘academicismos’ como cita o próprio autor.
Em se tratando de Brasil, um país com pouco apreço pela educação e cultura, quiçá a memória histórica como bem destaca o autor logo no início do livro será preservada. Retratando o péssimo estado de conservação dos museus nacionais e lugares históricos, alguns inclusive completamente esquecidos, Laurentino apresenta um certo tom de denúncia em seu texto. Seria proposital tal esquecimento?
Os fatos ocorridos entre 1808 e 1821 explicam muito do porquê de nosso país (e quem sabe até mesmo de como nós mesmos somos) ser desta forma como conhecemos hoje. De certa forma ainda vivemos como há 200 anos atrás, um país de espertos, favorecimentos, corrupção, impunidade, desigualdade, racismo e escravatura.
A perspectiva que o livro traz realmente faz abrir os olhos para coisas que antes passavam despercebidas, inclusive o interesse pela história do país.

O francês cujo ‘empurrãozinho’ ajudou a fazer ‘nascer’ o Brasil

Se a maneira como a história foi contada até hoje nos faz acreditar que a corte portuguesa era uma espécie de circo, um picadeiro, uma frase muito interessante dita por Napoleão sobre D. João VI pode nos ajudar a entender melhor a história:
"Foi o único que me enganou"
Podemos resumir, a grosso modo e com muitas aspas, que o destino do Brasil deveu-se a um homem, que nem brasileiro ou português era. Napoleão!
Na época, Portugal estava em uma situação muito complicada, pressionado por duas potências: de um lado a França e seu ‘invencível’ exército e de outro a Inglaterra, parceiro comercial antigo e que fazia pressão para Portugal resistir ao domínio de Napoleão.
Atingido pelo embargo Francês do comércio continental da Europa, Portugal era porto seguro que mantinha a Inglaterra abastecida.
O declínio de Portugal podia ser medido pelo estado de sua capital, Lisboa, suja e infestada de doenças e cães sarnentos. Nem a família real escapava.
"A falta de bons hábitos de higiene propiciava a disseminação de pragas e doenças [...] Pode-se ter uma idéia da precariedade da vida na corte por uma carta que o príncipe D. João [...] escreveu em 1786 à irmã [...]. Na carta, o príncipe conta que a mulher, Carlota Joaquina [...] tivera de cortar os cabelos devido a uma infestação de piolhos."
pág. 75
Apesar da mitológica força militar de Napoleão acredita-se que se D. João VI não fosse tão covarde Portugal poderia ter resistido e vencido o inimigo, já muito debilitado quando entrou em terras portuguesas. Porém este tipo de avaliação não passa de ‘achismo’ vindo de historiadores e estudiosos que puderam ver os fatos de uma perspectiva onde a história já ocorrera.
Depois de um tumultuado período de negociações com a França e Inglaterra, que tinha por objetivo principal ganhar tempo, a Família Real Portuguesa conseguiu subir em seus navios, caindo aos pedaços, e seguir para o Brasil, escoltada por uma frota Inglesa com um ‘dedo no gatilho’ para disparar contra os portugueses, caso estes desistissem da fuga. Na prática a corte estava na posição de um refém com uma arma apontada para sua cabeça.
Embarque da Família Real Portuguesa por Nicolas Louis Albert Delerive
Embarque da Família Real Portuguesa por Nicolas Louis Albert Delerive
A viagem teve todo tipo de dificuldades e privações. Navios superlotados demoraram semanas a fio até chegarem a Salvador, a primeira capital do Brasil, mas que perdera o posto para o Rio de Janeiro.
A escala em Salvador foi onde as mais importantes decisões para o Brasil foram tomadas como a abertura dos portos às nações amigas e a criação do 1º curso de medicina.
Começa assim a história do Brasil a ser reescrita!

Brasil, um tesouro escondido pelos portugueses, abre suas... portas (ou portos)

Vista do Pão de Açúcar por volta de 1820. Por Henry Chamberlain
Vista do Pão de Açúcar por volta de 1820. Por Henry Chamberlain
As riquezas que chegavam aos portos de Lisboa vindos do Brasil não paravam lá, iam para a Inglaterra e outros países. A relação de Portugal com o Brasil no Século XVIII era de pura extração de recursos, sem investimentos. A "riqueza fácil" sem trabalho foi um dos motivos pelos quais Portugal, na época, não produziu nenhum grande nome ou inovação.
"[...] no Brasil colônia se tinha aversão ao trabalho. [...] o objetivo da aventura extrativista era explorar rapidamente toda a riqueza disponível com o menor esforço e sem nenhum compromisso com o futuro"
pág. 54
"O primeiro carregamento de ouro do Brasil chegou a Lisboa em 1699. [..] A quantidade foi aumentando até chegar a 25 toneladas em 1720. No total, estima-se que entre 1000 e 3000 toneladas de ouro foram transportadas do Brasil para a capital do império."
pág. 55
E o que Portugal fez com a riqueza?
"A ignorância e o isolamento eram resultados de uma política deliberada do governo português, que tinha como objetivo manter o Brasil, uma jóia extrativista e sem vontade própria, longe dos olhos e da cobiça dos estrangeiros"
pág. 110
Daí podemos ver que esta política ainda perdura nos dias de hoje pelo sucateamento da educação, por exemplo. Vale a pena para o país produzir um certo número de pessoas cultas, bem informadas e técnicamente hábeis para manter a máquina em movimento porém se muitas pessoas passarem a obter conhecimento, serem críticas - que é o que a boa educação promove nas pessoas - a maioria dos que comandam nosso país jamais seriam estas que temos visto por anos e anos.
Tratando mais especificamente da família real e sua chegada no Brasil, as intenções desta pareciam estar bem distantes das de estadistas. Talvez a atitude fosse mais próxia à de refugiados temporários.
"Os novos hóspedes pouco se interessavam pela prosperidade do Brasil. Consideravam temporária a sua ausência de Portugal e propunham-se mais a enriquecer-se à custa do Estado do que a administrar justiça ou beneficiar o público"
pág. 165
Muito semelhante aos que hoje encontram-se no poder e que possuem como meta não o desenvolvimento do país, mas uma agenda de benefícios próprios.
O interessante é que apesar de todas as adversidades o Brasil colônia era mais dinâmico que Portugal e conseguiu formar inclusive uma elite intelectual.
Com a abertura dos portos para as "nações amigas", - na prática abertura para o comércio com a Inglaterra - o Brasil ganha um novo status. Isto ampliava o poder inglês sobre os negócios portugueses.
Além disso, os cidadãos ingleses gozavam de algumas regalias absurdas:
"Na prática, passaram a existir duas justiças no Brasil: uma para portugueses e brasileiros, outra só para ingleses, estes inalcançáveis pelas leis locais."
pág. 183
As vantagens comerciais para a Inglaterra eram tantas que até produtos inúteis para o Brasil como patins para gelo, calefação e cobertores grossos abarrotavam os quentes portos cariocas.

D. João VI, o "Rei Benevolente", mas nem tanto

Pintura de D. João VI, o rei que não queria ser rei.
Pintura de D. João VI, o rei que não queria ser rei.
D. João VI teve a imagem de um rei benigno, que cuida e protege. A imagem do pai com seus filhos. Por estranho que pareça é esta a mesma forma com que muitos eleitores se relacionam com os políticos, como padrinhos que lhes dão tudo em troca de um voto! Menos educação é claro.
Esta imagem fica ainda mais clara quando observamos uma peculiar prática daqueles tempos, a cerimônia do beija-mão, que consistia básicamente em entrar em uma fila para beijar a mão do rei em sua reverência e aproveitar para fazer algum pedido particular, apelando à sua "bondade".
Cerimônia do beija-mão
Cerimônia do beija-mão. Existe algo mais brasileiro do que isso?
Em troca de títulos os burgueses endinheirados financiaram as contas da corte no Brasil. Deram-se mais títulos nos anos da família real no Brasil do que em toda a história de Portugal.
"Outra herança da época de D João é a prática da ‘caixinha’ nas concorrências e pagamentos dos serviços públicos"
pág 168
Apesar de D. João VI na prática reinar há vários anos sua coroação só foi realizada no Rio de Janeiro, após a morte de sua mãe, a Rainha Maria I, mais conhecida como "A Louca".
"A coroação aconteceu em 6 de fevereiro de 1818. Foi a primeira e única vez que um soberano europeu foi aclamado na América."
pág. 256
O rei também possuía hábitos muito peculiares:
"Na algibeira dessa casaca, o rei levava os famosos franguinhos assados na manteiga, sem ossos, que devorava no intervalo das refeições. Tendo horror a roupas novas, enfiava El-Rei as mesmas que tinha vestido na véspera e cada dia resistiam menos à pressão de suas nádegas e coxas espantosamente gordas"
pág. 154
Seu apreço pela Biblioteca Real, que pode até contrastar em muitos sentidos com o que sabemos sobre seus hábitos, deve ser destacado. Era comum, por exemplo, ver o rei consultando os volumes. Apesar de na correria do embarque terem sido esquecidos no porto, em Lisboa, foram posteriormente confiados a um protetor bibliotecário e enviados ao Brasil. Uma passagem curiosa mostra bem como tinha especial carinho pelos livros:
"Em 1815, ao retornar a Londres, depois de uma temporada de seis anos no Brasil, Strangford recusou o presente do doze barras de ouro que lhe fora oferecido por D. João. O Rei não se importou com a recusa, mas ficou profundamente irritado quando soube que o embaixador tinha esquecido de devolver dois livros antigos que havia tomado de empréstimo de Real Biblioteca. Considerando-se pessoalmente ofendido, D. João fez uma queixa formal ao governo inglês e encarregou seu embaixador em Londres, Cipriano Ribeiro Freire, de recuperar as obras."
pág. 297
Na época de D. João VI estava muito na moda decapitação de reis, diminuição de seus poderes ou a expulsão de sua influência. Por isso, apesar de todas as características peculiares de D João VI, este foi considerado um rei "bem sucedido", já que conseguiu reinar até morrer, diferente de muitos de seus colegas europeus.

Escravos, escravos e mais escravos. Para que tecnologia afinal?

A escravatura foi sem sombra de dúvida a pior das mazelas impingidas pelos europeus. Segundo descrito por Laurentino, entre os séculos XVI e XIX cerca de 10 milhões de escravos africanos foram vendidos para as Américas e o Brasil, o maior importador, que recebeu quase 40% deste total.
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