O sol do meio dia produz um calor desumano. Faz quase um ano que não cai sequer uma gota de chuva no sul do Piauí, uma das mais secas regiões do Brasil. Sigo os passos do arqueólogo francês
Eric Boëda, enquanto enxugo o suor que escorre pelo meu rosto. Após
quatro semanas de trabalho duro com picaretas, pás e pincéis, durante
esse causticante julho de 2012, a missão que acompanho alcança seu
último dia de campo.
Estamos no sítio Vale da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara,
em um buraco de 30 metros quadrados que pode chegar à profundidade de 5
metros. Descemos ao local mais fundo, uma área coberta com lonas azuis.
Cheio de cuidado, Boëda retira os lastros que prendem o plástico ao
chão e expõe um tesouro produzido durante a pré-história do homem.
Um círculo irregular de pedras está semienterrado no chão de arenito
pardo. Com um brilho nos olhos azul-claros e um sorriso no meio da
volumosa barba, Boëda pergunta a mim, em um inglês cheio de sotaque
parisiense: “Vê as partes escuras? É carvão. Junto a essas rochas
dispostas desse jeito? Tudo isso é uma fogueira”. Ao redor, foram
encontradas pedras lascadas. “Enfim”, diz o arqueólogo, “estamos em um
sítio que reúne evidências importantes de que tenha mais de 22 mil anos.
Era isso o que procurávamos. Estava bem na nossa frente”, arremata.
Mas por que pararam nesse ponto? Por que não escavaram toda a fogueira?
Por que o trabalho foi interrompido diante de uma nova evidência de que
a região talvez seja uma das mais antigas moradas do homem americano? A
explicação de Boëda a minhas dúvidas traria novas camadas de
complexidade às questões centrais do enigma do povoamento das Américas.
A localização do sítio Vale da Pedra Furada é estratégica. Essa região agreste foi parte da fronteira entre Mata Atlântica e Floresta Amazônica, até que há 10 mil anos uma grande seca transformou tudo em Cerrado e Caatinga. Quase tudo: a mata relictual nos boqueirões da Serra da Capivara
se compõe de árvores tropicais, que sobrevivem graças à umidade entre
as pedras. Na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, o mais famoso ponto de
visitação do parque, uma longa passarela de metal permite a apreciação
de mais de mil pinturas rupestres. Abaixo da estrutura fica um enorme
vão, que evidencia os 400 metros quadrados de escavação ocorrida ali. “O
lugar tem um ar refrescante comparado ao calor ao redor. A presença da
água e a beleza das formações areníticas avermelhadas, formando colunas,
justificam seu uso como um centro cerimonial em diversos períodos”,
explica a arqueóloga Gabriela Martin no livro Pré-história do Nordeste do Brasil.
Homens pré-históricos viveram no sudeste do Piauí por milhares de
anos. Grupos atravessavam a floresta tropical em direção aos paredões e
cânions da serra, onde pernoitavam e faziam pinturas e cerimônias. A
área era repleta de abrigos, alguns próximos a fontes de água, e a mata
abrigava em torno de 70 espécies de mamíferos - Ilustração: Alexandre
Jubran